
As regras ditam, acordar ainda de noite para prolongar os dias curtos dos trópicos e conduzir com o barco atrelado rumo a norte até a um ponto de entrada na água mais próximo do recife. Durante a semana há uma diferença, não há filas de espera para se pôr o barco dentro de água…
Ainda assim leva entre uma a duas horas de navegação para se chegar a um sítio com recife decente e longe da influência do mangal, logo com melhor visibilidade. Nesta altura do ano o percurso de barco não é nada monótono, basta ir com alguma atenção e é-se presenteado com avistamentos de baleias de bossa, estão no final da época de migração para sul.
Apesar do vento (ou a falta dele) estar de feição para se ir para recifes mais exteriores e mais pristinos, a decisão sobre o sítio pendeu para umas pequenas ilhas (ou pequenos calhaus fora de água) mais perto da costa, logo com mais influência das águas costerias (mais turvas) e mais corrente (faz-me lembrar o Atlântico), mas com a certeza de ver muitos e grandes peixes. Afinal de contas o congelador começava a ficar vazio...
À semelhança de outros dias no mar: pescaria no coral; parar numa qualquer ilha a caminho de casa para filetar o peixe e evitar os trabalhos sujos em casa; não perder a oportunidade de comer peixe fresco e semi-cru, cozinhado apenas no ácido de sumo de lima e vinagre - Ceviche, receita originaria de países cento/sul americanos, neste caso com toque Mexicano; e no final os sorrisos por tamanha dádiva da natureza.
Depois de entrar no barco, veio-me à memória o filme “Pulp Fiction”, quando o puto descarrega balas sobre o Samuel L. Jackson e nenhuma delas lhe acerta. Não conseguia deixar de pensar no porquê que ele tinha falhado. Decidi não invocar justificação divina e nem me vou pôr a recitar um determinado excerto da bíblia sempre que me preparar para apanhar um peixe. Penso que o tubarão se deve ter apercebido em cima da hora ou quando sentiu as minhas barbatanas que eu não era aquilo que ele pensava quando estava no fundo e desistiu no ultimo milésimo de segundo...
Fiquei ainda mais convencido desta justificação depois, quando fui pesquisar na net e descobri este vídeo
Agora consigo falar e até fazer piadas sobre o assunto, mas essa mesma noite foi muito mal dormida... Vendo por outro prisma, são dias assim que nos fazem realizar que um segundo diferente pode mudar muita coisa, que eu estou e que é isto que é a Austrália, que não devo estar demasiado confiante com tubarões dentro de água quando estou a apanhar peixes, que esta vida é linda e se ainda não vos disse, que vos amo a todos....