domingo, 26 de abril de 2009

Olá, eu sou o José Gonças

Depois de encontrar o José Flinsteiger na pequena cidade de Kuala Lumpur na Malásia, voamos para Makassar, uma das principais cidades de Sulawesi, a maior por ventura, uma coisinha praí para 2 milhões de habitantes. - Porta Sul da Ilha , por aqui começaria a nossa aventura por terras das Celebes, nome dado a estas ilhas e ao mar que as envolve, pelos Portugueses que no século XVI por aqui andaram (andamos) a pontuar pontos do território com fortes, arquitecturas e referencias linguísticas que ainda hoje perfumam as bocas desta malta. Daqui directamente para Rantepao a 330 km Norte e 10 horas! As paisagens “breath taking” sucediam-se a ritmo que só não é alucinante porque a velocidade dos autocarros aqui, poucas vezes atravessa os 50 km/h ... curva mais curva mais curva , sobe sobe desce sobe balão sobe ! E desce novamente e curva e curva e curva para uma estrada que ... já lá não está ! Ou porque ruiu , ou porque foi engolida numa avalanche ou num rio transbordante, ou uma árvore daquelas pequeninas (as árvores aqui são todas bebés! Coitadinhas...) caiu no meio da estrada ... Todos estes episódios elevam as horas de percurso do ponto A para o ponto B exponencialmente, pelo menos para quem estará habituado a um registo ocidental da analise – distancia / tempo que a levo a percorrer !

Isto sucede por toda a ilha o que leva a que muita da história e memórias desta viagem (escrevo já isto no final da viagem) fiquem associadas ao tempo em trânsito... desde autocarro fino, a autocarros com galinhas ou com peixes (dependendo da zona), charter cars, charter boats, ferrys, traseiras de pick-up, mikrolets, ojeks, pet pet, mota, bicicleta ou a pedantes, muito é o tempo que passamos em lugar nenhum. Em transito assistimos à transfiguração da paisagem, envolvemos-nos com os locais que habitam estes meios de transporte. Será esta então uma história de envolvimento: de pessoas, de sorrisos, de paisagens, de lugares, de memórias e abstracções.

Sulawesi

...E acho que não me enganei... Esta ilha de morfologia bizarra é composta por 4 penínsulas montanhosas que sobem quase até aos 3000 metros e que caem directamente num mar azul turquesa (quando longe da civilização) e na sua maioria protegido por paredes de coral. Logo muito por desfrutar nesta ilha, o único senão: o seu tamanho. Subestimei-o, especialmente ao decidir entrar por Makassar, no extremo SW da ilha e sair por Manado, no extremo NE em apenas 22 dias, o tempo que me resta da viagem (snif, snif....). Bem, isto vai significar muitas horas de autocarro e de ferry para atravessar os muito mais de 1000 km que separam estas duas cidades. Com estes dois eu não me importo, o que me chateia é que muito vai ficar por conhecer em Sulawesi, pra não falar das centenas de ilhotas que a rodeiam por todo o lado. Mas queria mesmo passar pelas montanhas da península Sul da ilha e experimentar as fortes tradições culturais ainda presentes e mergulhar em vários spots de mergulho de nível top mundial na península Norte.

Na indonésia dão-te um visa à chegada para 30 dias por 25 dolars e depois obrigam-te a sair para re-entrares e pagar novamente a taxa. Assim fiz escala em Kuala Lumpur onde me encontrei com o Gonças, que decidiu fazer-me companhia nesta aventura Sulawesiana. Acompanhado por um arquitecto vale a pena ficar dois dias numa cidade grande e mais ocidentalizada (para variar as vistas) e visitar as torres gémeas da Ásia. Com um bom amigo vale uma noitada downtown na companhia de CSs locais.

Ainda no avião que fazia a ligação entre Kuala Lumpur e Makassar deu logo para sentir o cheiro de uma das principais razões que me fez querer voltar à Indonésia: as pessoas! já éramos a atracção do avião! Não consigo adjectivar os Indonésios... Não se trata de serem apenas simpáticos ou de nos receberem bem, há como que uma humildade genuína misturada com inocência em cada um deles. O seu sentido de humor está ainda por explorar, riem-se de tudo e para tudo como que crianças envergonhadas. E estas abundam neste país nada envelhecido, e são lindas... É a interagir com pessoas destas que se fica mais frustrado por não conseguir falar a língua deles num nível acima do “apa kabar” ou do “terima kasih”, ou outros essenciais.

Porque vou fazer este último trecho da viagem com companhia, quero também que o Gonçalo contribua para este espaço. Abro aqui um parêntesis para que o Gonças deixe as suas impressões da Indonésia e seja ele a falar sobre o primeiro destino que exploramos em Sulawesi: a região de Tana Toraja. Dá-lhe Gonças...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O que interessa

Mas já chega de blá blá blá de casas de banho e outras bull shits culturais, o que me pediram foi fotos e não pobre literatura. Então aqui vão algumas imagens dos bons momentos proporcionados pela Wild Sumatera. A realçar: uma caminhada descalço em plena selva tropical, de noite e apenas com luz de um telemóvel e sem trilho marcado, só porque queríamos ver o pôr do sol no mar a partir duma cascata enfiada numa garganta da montanha (brutal); pela selva das Mentawai com uma família de indígenas; residência numa floating house para “tentar” surfar as inúmeras ondas das Mentawai (e tratou-se mesmo de tentar já que aqui os aprendizes são carne para coral ou para a fibra da prancha); descanso no maior lago do SE asiático, uma verdadeira Suíça com clima tropical; e finalmente um dos highlights de Sumatera, spotar Orangutangus num dos seus últimos redutos selvagens.
Sumatera
Depois de tudo isto, a única opção que me restava era continuar a viajar pela Indonésia, aonde? Escolhi uma ilha ao acaso: Sulawesi

Os transportes

Quero deixar aqui também uma nota para outra verdadeira experiência cultural na Indonésia: as infindáveis viagens de bus e de ferry. Queria saber porquê que fazer pouco mais de 600 km de autocarro entre as duas principais cidades de Sumatera (Padang-Medan) demorava cerca de 22 horas. Não arrisquei fazer tudo de uma vez, até porque queria parar em Danau Toba, o maior lago vulcânico do SE Asiático a 18 horas da origem. Aquilo que eles chamam a Trans-Sumatertan Hwy, que que atravessa a 6ª maior ilha do mundo (cerca de 2000 km), não é nem uma autoestrada, nem tão pouco uma estrada que se considere transitável. A maior parte do caminho é um estreito de alcatrão cheio de crateras e quase sempre às curvas. Em alguns sítios a estrada desaparece devido a derrocadas causadas pelas chuvas ficando praticamente intransitável. Numa dessas situações em subida tivemos mesmo que sair do autocarro e ainda assim o “sweaty and crampy bus” não conseguiu subir e teve que ser puxado por uma máquina que puseram lá para o efeito. Devido ao modo de condução deles circular nas estradas de Sumatera é das aventuras mais perigosas que se pode fazer nesta ilha. Deixei de contar as vezes que o condutor do autocarro obrigou o trânsito em sentido contrário a parar devido a ultrapassagens mal calculadas e vice-versa. Mas durante estas 18 horas de trânsito e de inúmeras paragens (algumas delas nem sei porquê) criou-se uma pequena família de Indonésios e um turista. Valeu bem a experiência...

O ferry que faz a ligação nocturna entre Padang e a ilha de Siberute duas vezes por semana, mas que também não é certo (maybe yes, maybe no, maybe today, maybe tomorrow...) - uma classe. Já tinha ouvido falar acerca da qualidade e segurança dos ferrys que cruzam as inúmeras ilhas na Indonésia e este sem dúvida que fazia jus a essa reputação. Por termos reservado com antecedência, conseguimos lugar numa das cabines do barco e assim evitamos ter que partilhar o chão do convés do barco com as várias famílias de indonésios, de galinhas e de ratos para passar a noite (que pena não ter fotos). Acima de tudo partilhar o cheiro e calor intensos desta zona do barco. Nas camaratas - um luxo, cada cabine tem 4 lugares tipo beliche com cerca de 1.7m de um colchão acabadinho de estrear (como devem imaginar) onde apenas que tínhamos que partilhar com algumas baratas que nos iam acordando com cócegas durante a noite com as suas belas patinhas. Quando acordei tinha uma dentro da minha almofada insuflável, não sei como lá foi parar... Mas o facto de termos uma janela cada um, permitia renovar e refrescar ar, evitando o cheiro nauseabundo que vinha do convés. Uma outra experiência, já que quando as Mentawai entrarem definitivamente na rota do turismo isto vai desaparecer...

Sumatera, uma ilha especial


Outra vez em Padang mas agora com a companhia de um quase-local, tudo muda. É mesmo como dizia o outro “People are strange, when you're a stranger, faces look ugly, when you're alone”. Se ao início todos tinham aspecto cigano e sempre com segundas ou terceiras intenções quando me abordavam, já com alguém que conhece sítios e gentes e que se move à vontade tudo é diferente. Conheci verdadeiros locais (muito boa gente), comi da comida deles e visitei os seus undergroung places mas agora duma outra perspectiva, acima de tudo mais segura (e como eu gosto de poder usufruir dos sítios e modos de vida deles quando estou no sítio deles).

Ao final de um mês a viajar em Sumatera a imagem negativa que eu tinha dos Indonésios mudou completamente, as pessoas são especialmente simpáticas. Relativamente às cidades e vilas, não que seja particularmente interessante estar em zonas sobre-populadas com um caos em termos de trânsito e barulho, água do mar castanha, toneladas de lixo a boiar, lixeiras e esgotos a céu aberto e animais de todo o género por todo o lado, mas faz parte da realidade destes países. Experimentar uma realidade e valores tão diferentes, foram para mim um dos highlights desta viagem em Sumatera. Passa a dar-se mais valor a pormenores que damos quase como adquiridos no nosso quotidiano na Europa. Esta deveria ser a realidade na Europa há não muitos anos atrás. Por exemplo, as casas de banho ainda são maioritariamente compostas por um buraco, um tanque com água e um pequeno balde de mão. Luxos como papel higiénico ficam para outros países mais delicados....Aquela águinha do tanque é usada para tudo, para reciclar a água do buraco (tipo autoclismo), lavar dentes, tomar banho ou aquelas partes que se sujam numa normal ida à casa de banho. Mas atenção com a mão que se usa para realizar “essa tarefa” já que comer com a mão é a norma nestes países.

Outro facto que me fez apaixonar por Sumatera e as ilhas Mentawai em particular foi o facto de as ter que partilhar com poucos estrangeiros, talvez por serem poucos os sítios que estão preparados para receber turistas. Alguns sítios tiveram uma época alta de turistas na década de 90 mas sofrem agora as consequências de catástrofes que assolaram a ilha num passado recente: o tão famoso tsunami, um imediatamente seguinte tremor de terra e uma enchente que devastou vilas em algumas zonas ribeirinhas. Tudo isto a somar à fama de terrorismo e guerras internas causadas por conflitos religiosos resultaram num afastamento dos turistas para países vizinhos mais estáveis e seguros como a Tailândia. Resultado: locais de braços abertos a novos turistas, bons preços e muito por explorar à aventura. Os locais contentam-se em pronunciar o único Inglês que sabem “Hello mister”. É impressionante a quantidade de vezes que temos que responder a esta saudação todos os dias, desde ao mais pequeno petiz até aos velhotes que se encontram na rua. Os que sabem um pouco mais de Inglês ficam contentes em poder praticar connosco e pedem mail ou nº de telefone para poder praticar a escrita.

Sumatera, um início atribulado

A chegada a uma outra grande cidade, Padang, com apenas duas horas de sono e uma ressaca descomunal foi salva por uma família de Jakartanos que conheci no aeroporto. Deram-me boleia de carro até ao centro da cidade e, a meu pedido, deixaram-me no hostel mais barato que eles conheciam. Não sei se era o mais barato de Padang, mas sem dúvida o pior sítio que eu alguma vez dormi e localizado num bairro que nem todos os locais devem frequentar. Pelo menos essa foi a sensação com que fiquei no momento da chegada à noite. Ainda antes da família me abandonar ali perguntei: “Am I safe here?”, “I think yes, no problem”. No problem, no problem, mas achei melhor ir directo para a cama (ou o que aquilo era) antes das 8 da noite sem ir à procura de um sítio para comer. No dia seguinte, com os preconceitos que trazia na cabeça sobre a Indonésia e as suas gentes, tinha que fugir de cidades para me poder ambientar a uma nova realidade.

Refugiei-me na natureza e no sossego de um lago vulcânico (Maninjau) a três horas de Padang. O sítio ideal para lamber as feridas mal curadas que trazia da Tailândia e esperar a chegada dum tuga que vive actualmente entre Padang e as ilhas Mentawai. A água doce do lago a um temperatura de 24º C e o parco arsenal de recursos clínicos que trazia para combater as feridas em tão isolado sítio, resultaram em infecções desagradáveis à vista. Ao fim de 3 dias, uma retirada estratégica com 38.5 ºC de febre foi mandatária para o hospital de Bukittinggi, a duas horas e infinitas curvas dali. Aqui tirei uns dias para descansar e foi quando finalmente tive tempo e paciência para escrever sobre o tempo que passei na Tailândia. Um início de Indonésia atribulado....

Indonésia - Jakarta

A decisão de comprar a viagem para a Indonésia à última da hora no aeroporto de Dusseldorf não foi totalmente ao acaso. Indonésia sempre esteve para mim no top 3 da lista dos países que um dia gostaria de vir a visitar. Não sei bem porquê, mas aposto que a culpa foi de um desses programas de televisão que vi sobre vida selvagem onde divulgavam imagens da quantidade de floresta virgem, espécies de flora e fauna endémicas e tribos ainda isoladas que ainda existem neste imenso país. Um dos problemas para mim à partida era mesmo esse, Indonésia é gigante, composto por milhares de ilhas que, à excepção da ilha de Bali, estão ainda pouco preparadas para o turismo mais convencional. O outro problema que a Indonésia me punha à partida era o pensar que se tratava de um país perigoso para viajar, dadas as notícias que vêm a público das inumeras ocorrências de catástrofes naturais, de overloaded ferrys ou de terrorismo, mas também tinha um preconceito relativamente ao aspecto dos Indonésios que me pareciam à partida todos um pouco ciganos. Estava na altura de desmistificar estes preconceitos e assim estava feito, voo para a grande capital – Jakarta.

Estar em cidades grandes já não me fascina por aí além e a juntar às opiniões que vim recolhendo de algumas pessoas que tinham passado por Jakarta que eram do tipo “não percas tempo lá”, apressei-me a comprar um bilhete de saída de Jakarta, imediatamente no dia seguinte à chegada, para Padang – ilha de Sumatera. Ainda no aeroporto de Bangkok dei por mim a falar com um Belga que, após ouvir as opiniões que me tinham dado sobre Jakarta, decidiu querer provar-me precisamente o contrário em apenas uma noite. A determinação dele era tal que me patrocinou uma noite no Stadium club “Jakarta's – Asia's – most hardcore clubbing experience” assim descrito no guia. E foi isso mesmo, uma experiência numa disco de 4 andares que abre na quinta feira e só fecha segunda de manhã. E por aqui me fico...